terça-feira, 16 de abril de 2013

A história da 1ª rodovia pavimentada do país


Rodovias, hoje paisagem banal, eram raridade há 150 anos. O mais comum eram caminhos precários, pelos quais, em muitos casos, só passavam pessoas e mulas. Exatamente há um século e meio, surgia uma das mais modernas estradas da época: a União e Indústria. Com 114 quilômetros de extensão, ligava Petrópolis (RJ) a Juiz de Fora (MG). A rodovia retificou o antigo Caminho Novo, de modo que pelo local pudessem passar carruagens. Trata-se de obra arrojada para a engenharia do século 19, construída praticamente à mão, já que não havia maquinário específico. Era, ainda, a primeira da América Latina com asfalto menos denso que o atual, ideal para enfrentar o período de chuvas. Teve significado econômico importante: foi criada para escoar a produção de café. O imperador dom Pedro II esteve presente no início das obras e, com toda a corte e estafe, na inauguração da estrada.

Testemunha de toda a empreitada foi um alemão ilustre: o fotógrafo Revert Henrique Klumb (183?–1886). Ele não só registrou a inauguração como, por conta própria, cuidou de fazer ensaio fotográfico que resultou no pequeno álbum 'Doze horas em diligência – Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora', versão de litógrafos da época para as fotografias feitas por ele. Foi o primeiro guia (e livro de imagens) impresso no Brasil. A exposição 'União e Indústria: Uma estrada para o futuro', apresentada até 18 de maio no Espaço Cultural dos Correios, em Juiz de Fora (MG), reúne 22 fotos de Klumb e algumas litografias criadas a partir delas, todas realizadas entre 1860 e início de 1870. São obras, explica Pedro Afonso Vasquez, curador da mostra, de um dos mais importantes fotógrafos em atividade nos anos 1800 no Brasil.

“São imagens de muito simbolismo”, afirma Pedro Vasquez. Emblematizam o início da ligação rodoviária do interior do Brasil com a capital (na época o Rio de Janeiro). Simbolismo, para ele, mantido quando a estrada foi incorporada pela BR-040, que chegava até Brasília. Depois, observa, a obra reuniu grupo (desde dom Pedro II ao empresário Mariano Procópio Ferreira Lage) entusiasta da ideia de construir um império nos trópicos. “Todos os visitantes que passaram pelo local elogiavam o realizado, o que indica o impacto que a empreitada causava”, acrescenta. Contexto com atmosfera de busca de novos horizontes para o Brasil, que, na opinião dele, certamente deve ter contagiado Klumb na decisão de fazer o guia. “As fotos do alemão carregam o olhar de toda a comunidade envolvida na criação da União e Indústria”, explica o curador.


Clássicas Pedro Vasquez, pesquisador, crítico e escritor, é autor de importantes livros sobre fotografia antiga brasileira. Um novo trabalho já está em andamento: um dicionário da fotografia clássica, “a não digital”, brinca. “Como houve mudança tecnológica, precisamos de livros sobre as técnicas usadas antes da digital. Em pouco tempo, talvez ninguém se lembre delas”, observa. A dedicação aos fotógrafos do século 19, conta, “é culpa de dom Pedro II”. Diretor da Funarte na década de 1980, observou que faltava livro sobre imperador que fomentou, de vários modos, a fotografia no país. Fez então 'Dom Pedro II e a fotografia no Brasil' (1985). “O projeto era só esse livro, mas descobri coisas incríveis. Querendo compartilhar, acabei escrevendo outras obras”, conta.

Avaliando as pesquisas sobre a fotografia no passado brasileiro, Pedro Vasquez conta que muito (edições, pesquisas, recuperação de acervos etc.) já foi realizado e com padrão de excelência inclusive no plano gráfico. “Por sorte, ainda há muito a fazer”, observa. A carência, aponta, ainda é a pesquisa em cidades que não são capitais. Sobre o acervo fotográfico do Museu Mariano Procópio, de onde vêm as imagens que estão na exposição, ele considera que é coleção de valor nacional e internacional, que merece ser mais divulgado. Tendo conhecido períodos sem leis de incentivo, e projetos que levavam até uma década para serem realizados, comemora a existência delas, creditando ao mecanismo muito do feito na área de fotografia.


Paisagista respeitado

Pioneiro – Revert Henrique Klumb, quando fez as fotos, conta Pedro Vasquez, era homem celebrado pela qualidade dos seus serviços. Era fotógrafo do imperador, professor de fotografia da imperatriz Teresa Cristina e da princesa Isabel. Tinha o direito (dado por Pedro II) de usar o título de fotógrafo da Casa Imperial. “Era fotógrafo completo. Fez fotos de significado histórico, científico e de grande beleza plástica”, afirma Vasquez. Klumb era paisagista respeitado, fotografou aves e plantas, ganhou prêmios em salões de arte do período. “Sob todos os pontos de vista, era um dos 10 melhores fotógrafos em atividade no Brasil do século 19”, garante. São de Pedro Vasquez dois livros publicados sobre o fotógrafo: 'Revert Henrique Klumb, um alemão na corte brasileira' (Editora Caiçara) e o 'Brasil na fotografia oitocentista' (Editora Metalivros).

União e Industria – A Estrada de Rodagem União e Indústria, ligando Petrópolis (RJ) a Juiz de Fora (MG), foi inaugurada em 23 de junho de 1861, por dom Pedro II. O projeto começou em 1854, quando o empresário Mariano Procópio Ferreira Lage recebeu a concessão, por 50 anos, para a construção de uma rota que, partindo de Petrópolis, se dirigisse à margem do Rio Paraíba. Criou, então, empresa com o mesmo nome da rodovia, cujo lucro provinha do pedágio por mercadoria cobrado dos usuários da rota. A criação da estrada abriu caminho para a expansão comercial de Minas e sinalizou decisão de avançar rumo à interiorização articulada. A estrada é parte, desde 1973, da BR-040, que vai até Brasília.

Patrimônio – A mostra 'União e Indústria' está sendo apresentada no Espaço Cultural Correios, inaugurado em 2007 em prédio de 1935, tombado pelo patrimônio e que integra circuito institucional, público, dedicado às artes visuais, instalado em belos e importantes imóveis históricos. São eles: o Museu Murilo Mendes, o Museu Mariano Procópio e o Espaço Cultural Bernardo Mascarenhas. A programação do local prevê, até o fim do ano, mostra dedicada ao gravador Oswaldo Goeldi (1895–1961) e outra ao escultor Victor Brecheret (1894–1955), ambos referências históricas do modernismo brasileiro. A programação é feita a partir de edital e as inscrições para 2014 serão ser abertas em maio.

União e Indústria: Uma estrada para o futuro
Exposição de fotos e gravuras. Espaço Cultural dos Correios, Rua Marechal Deodoro, 470, Centro de Juiz de Fora. Informações: (32) 3690-2027. Aberta de segunda a sexta, das 10h às 18h; sábados, das 10h às 14h. Entrada franca. Até 18 de maio.

(Fonte: Portal UAI)

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